Juntei tudo que era meu.
Roupas, pentes, papéis, coisas.
Juntei os cacos.
Estava tudo espalhado.
Sobre os móveis, sob as roupas.
Eram restos por todos os cantos.
Eu já não via mais, em lugar algum, um resquício do que
fomos.
Por mais que eu me esforçasse, não éramos mais nós dois naqueles retratos.
Os livros na estante haviam esquecido de tudo o que já
tinham presenciado.
Nesse momento era apenas eu, minhas coisas e meus
pedaços.
Juntei tudo e parti.
Não chorei.
Eu deixei de chorar faz tempo.
Eu deixei de chorar no instante em que não me reconheci
mais.
Não havia dor, embora também não houvesse alegria.
Era a sensação de deixar o meu, que nunca tinha sido
realmente meu.
Não foi simples, foi anestesiante.
Não foi bom, foi preciso.
Não foi como eu sonhei, foi como tinha que ser.
Agora livre, posso ser novamente eu.
Eu, minhas coisas e meus cacos.

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