Numa folha sobre a mesa:
“Crescer é entender que as
coisas nem sempre acompanham uma ordem natural.
Seguir é saber que há tanto
que se deixa no caminho, que num momento, lá na frente, a gente nem acredita
que sobreviveu.
Eu amava demais o que eu
tinha. Era intenso e real. Eu tinha algo que pensava ser imutável, incorrigível,
perfeito.
Acreditei que ao longo da
minha vida havia juntado amigos, parceiros de sonhos, e que a nossa história
seria sempre intensa, e cheia de amor, até porque de intensidade eu entendo, e
de amor, bom metade de mim é amor, e a outra também.
Não que me arrependa de tudo
o que fiz. Fiz porque quis, e se o fiz, foi conscientemente.
Me arrependo de ter me
prendido a um meio só.
O tempo passou e o inevitável
aconteceu, fiquei para trás.
Tudo evoluiu, e eu não. Perdi-me,
insanamente nas promessas que fizemos. Errei.
Acontece, que depois de um
tempo, recomeçar é tão difícil. O principal pensamento é o de que, pura e
simplesmente. não há mais tempo. E há? Será?
Fiquei com os meus
frangalhos e o meu cansaço. Fiquei com meus sonhos e minha solidão.
Coloquei todas as cartas na
mesa, apostei tudo, e apostei errado.
Mea culpa.
Eu deveria ter visto o
óbvio. Eu deveria ter montado o meu kit de sobrevivência, posto tudo numa bolsa
e deixado próximo, para usar agora.
Sim, se há um momento para
recorrer a algo que me ajude a sobreviver esse é o momento.
Não choro. Não há lagrimas. Há
dor. Dores fortes como a do abandono, a de não ser respeitado, a de não ouvir a
verdade. E não me refiro a uma verdade subjetiva, nem a uma verdade que quero ouvir,
me refiro a verdade reta, sem atalhos e floreios. A verdade que une dois pontos
da maneira mais prática e rápida possível. Verdade.
Não havia nenhum contrato
entre nós, não éramos regidos por nenhum código, apenas éramos unidos por amor,
amizade, fraternidade. Não posso viver acreditando que isso seja tão frágil,
tão esgotável.
Enfim, me comprometo, e me
comprometo comigo mesmo, a seguir, a sorrir, mas observe, quando puder, o meu
sorriso, ele foi mudado. Observe o meu olhar, foi tornado mais raso.
Sigo porque não há outra
alternativa.
À mim o recomeço.
À você, o melhor que houver
nessa vida.”
Escreveu-me isso, esvaziou
as gavetas, levou os retratos e se foi.
Deixou em mim o talvez...

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